Yoga - Descobertas do “Pratique, pratique e tudo virá”.

Yoga - Descobertas do “Pratique, pratique e tudo virá”.

Está semana, estava em um canto do terminal esperando o próximo ônibus. Como é comum, muitas pessoas circulam constantemente de um lado para o outro, e raramente nos olhamos nos olhos. Estamos desatentos ao que está acontecendo de maneira simultânea a nossa frente. Gosto de olhar para o rosto das pessoas, ver suas expressões, sua beleza. Gosto da ideia de fazer algo novo todos os dias. Neste dia, resolvi sorrir para aqueles que me olhassem nos olhos. Um jovem rapaz com olhar tímido passou, e sorri para ele. Ele se sentiu à vontade, voltou, e falou comigo. Inicialmente me xavecou. Falei minha idade, e logo ele entendeu. Entre uma conversa e outra, surgiu um assunto sobre relacionamento. Ele ensaiou, começou a falar que era difícil manter um relacionamento duradouro, e, antes mesmo de terminar a frase, tive um impulso de interrompê-lo e dizer que ele era muito novo, que ainda teria várias namoradas, viveria algumas decepções, dar minha opinião talvez rancorosa demais sobre o assunto como já fiz algumas vezes. Tive o impulso, mas não o interrompi. Ouvi. E, no final das contas, o que ele disse não tinha nada a ver com a minha inicial projeção. A “descoberta” era sobre como um jovem que acabou de iniciar a vida, somente desejava um relacionamento feliz e duradouro para não se sentir só. Viveu nas ruas uma boa parte da vida, e no dia que teve coragem, começou a vender balinha nos terminais de ônibus e alugou um lugar para morar honestamente. Tinha vivido muitas coisas que eu nem consigo imaginar, e que a única coisa que ele sentia falta ao chegar em casa, era de alguém para compartilhar a vida. Nunca chegou a conhecer seus pais biológicos. Foi criado pelo mundo. Eu ouvi, dialoguei, fizemos uma bela amizade, tivemos um ótimo final de tarde.

Bazinga.

É sutil, é delicado, é homeopático: este tal de processo de mudança. E nos damos conta dele em certos momentos. Aqueles em que, diante de uma situação em que reagiríamos de determinada forma, agimos diferente. Aquele momento em que quebramos um padrão.

Sim, a historinha acima aconteceu um dia desses. Mas, é claro, sou consciente de mudanças em minha vida há pouquíssimo tempo. É um processo contínuo e progressivo, entre idas e vindas. E esse episódio, singelo que foi, me trouxe palavras à cabeça.

“Pratique, pratique e tudo virá”, palavras de Pattabhi Jois.

Mas o que é esse tudo? Certamente não é fazer uma invertida, fechar um lótus, colocar o pé atrás da cabeça, dar cambalhota, fazer abertura. Não, não se trata disso. Muito embora tudo isso faça parte da prática. Esta prática que fará tudo vir. Mas não pela execução em si. Mas sim, por tudo o que aprendemos no processo.

O que vem, não são apenas maravilhas.

Nem sempre será fácil. Às vezes, sejamos sinceros, é bem difícil. No caminho, diversos obstáculos, alguns que precisam ser removidos; outros, colocados minuciosamente no caminho para nos ensinar algo.

Às vezes criamos obstáculos mentais antes mesmo de tentar. Tentar de verdade. E às vezes tentamos muito, mas não alcançamos logo. Demora, toma tempo, testa nossa resiliência, nossa paciência, nosso ego. Não somos capazes? Somos! Mas tudo tem seu tempo. Não é exatamente o último ásana que você faz que fala sobre sua prática, mas o modo como você a encara, como você se dedica, como você se concentra e se mantém aberto a construções e desconstruções, que vão muito além do físico: estamos trabalhando em nós mesmos como um todo. Este todo que é mente, corpo e espírito.

E as mudanças acontecem.

É possível mudar porque nós não somos aquele padrão. Nós, na verdade, nos apegamos aos padrões. Nos apegamos a papéis que construímos para nós. Nossa cultura também nos obrigou de alguma forma a isso. Quase como um cineasta de um sucesso só, apegado àquele único filme que fez sucesso: somos, às vezes, nós, nesta vida. Seguimos construindo padrões de acordo com as nossas experiências de vida. Seguimos construindo modos de reagir às situações e às pessoas, de acordo com o que, em certo momento, deu certo para a gente – ou pareceu dar.

Mas – novamente – nós não somos isso. Estes padrões não nos definem. E eles podem ser quebrados. Não significa que de uma vez e para sempre. Mas, ao criarmos uma abertura de mente e autoestudo, abrimos espaço para seguirmos agindo diferente. Sentindo, pensando, agindo.

As emoções podemos não ter controle, mas podemos ter controle sobre as ações que seguem a este sentimento. Diante do ciúme, daquela pontada no peito, da impaciência, da raiva, da tristeza, podemos cultivar o sentimento ou podemos refletir sobre ele, sobre o porquê de sentirmos o que sentimos. Ui, não é fácil. Mas, garanto, é possível.

E, não, não se trata de reprimir sentimentos. Nada a ver com espiritualidade tóxica, energias. Nada disso. Há sentimento e não há negativa. O que há é reflexão, estudo, e… escolha.

E por que a prática é tão poderosa? Porque ela trabalha com nossa força, interna e externa. Põe a ferida no nosso ego (de tantas formas diferentes). Nos ensina sobre tentar, errar, cair, fazer de novo. Nos ensina que somos um, dentre tantos; que não somos especiais, mas verdadeiros em nossa união; que somos feitos da mesma matéria, da mesma carne, viemos e voltaremos para o cosmos. Nos ensina sobre humildade, consistência, empatia.

Em um dos livros mais famosos de Carl Sagan, Pálido Ponto Azul. Sagan revela que devemos dar importância aos nossos relacionamentos, e que devemos nos relacionar mais uns com os outros.

Nessa obra, também salienta a importância de cuidarmos do nosso planeta, até porque ele é o único lugar do universo que tem a capacidade de abrigar vida, até o prezado momento. Ele ainda alerta para os impactos de nossas ações, que podem ser muito significativos num futuro mais próximo do que imaginamos.

Em uma passagem do livro, ele diz:

“Considere novamente esse ponto. É aqui. É nosso lar. Somos nós. Nele, todos que você ama, todos que você conhece, todos de quem você já ouviu falar, todo ser humano que já existiu, viveram suas vidas. A totalidade de nossas alegrias e sofrimentos, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas, cada caçador e saqueador, cada herói e covarde, cada criador e destruidor da civilização, cada rei e plebeu, cada casal apaixonado, cada mãe e pai, cada criança esperançosa, inventores e exploradores, cada educador, cada político corrupto, cada “superstar”, cada “líder supremo”, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu ali, em um grão de poeira suspenso em um raio de sol.”

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Assumir nossa pequenez frente ao Universo, é um conhecimento que nos leva – ou pode nos levar – ao autoconhecimento. O Yoga não é o único caminho. É um caminho que, por mil e um significados, nos transforma. Um processo em que, por nos tornar conscientes de tanta coisa, muda nosso esquema de valores. Nos ajuda a construir uma atitude diferente frente à vida.

E tudo começa respirando, ouvindo, soltando a mandíbula e focando o olhar. E, assim, posso continuar construindo diálogos com quem sorrir para mim, me desapegando das deduções com o qual por muito tempo me identifiquei. Sim, afinal: eu? Eu não sou as inferências, não sou a raiva, não sou o rancor, não sou a mágoa.

O resultado do que fazemos nos espera mais adiante.

Como professora, pude testemunhar transformações muito bonitas na vida dos (as) meus (minhas) alunos (as). Por isso sou tão grata. O Yoga é o tesouro humano que nos foi dado generosamente, e, curiosamente, seu esconderijo, que de início parece intangível, revela-se ao alcance de uma simples respiração consciente. Cada um de nós carrega o Yoga dentro de si. Essa é justamente a beleza da prática!

Desejo mais vida, conhecimento, paz interior, sensibilidade, empatia, e união a todos os humanos!

Eu amo o Yoga.

Namastê.

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